terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Tem faltado tempero.



Era estranha a sexta em que o telefone de casa não tocava com ela do outro lado da linha repassando a programação do final de semana. E assim foram os dois anos e meio ao lado da Laís. Os dias em que eu dizia estar desanimada, sem querer sair de casa, o discurso de prontidão era: “Amiga, a gente tem que aproveitar as oportunidades que a vida nos dá.” Ela não falava só das festas, ela era intensa em tudo. Fizemos um mês de dança de salão juntas (assim como a academia, o Projete, a Facto, a Dois, os trabalhos da faculdade, tudo), ela cansava os professores do tanto que perguntava. “Nossa, Laís. Outro passo? você não cansa não?” Não, ela nunca cansava. Queria tudo que podia. Podia tudo que queria.
“Ela balança, mas não para!” O Funk agora soa melancólico nos meus ouvidos. A batida dentro do Escort vermelho já de manhã cedo no caminho da faculdade. A mesma batida que dançamos na última festa. Aquela em que todo mundo riu, aquela que você tanto programou, decorou e dançou, dançou, dançou. Balançava e não parava. Falava com todo mundo. E dançava, dançava.
A menina que, no meio da Brasília seca e fria, acolheu a nordestina carente de atenção. Que me apresentou metade das pessoas que eu conheço hoje. Que tanto fez e foi conhecer o calor do meu carnaval pernambucano. E fez todo mundo comentar, de Brasília a Recife, “Animada essa sua amiga, né?”. Eles não tinham visto nada. A menina do Escort, como era conhecida aqui em casa, tinha garra, tinha força. Ai de quem mexesse com ela. Pimenta no nome, Pimenta no sangue. Leonina roxa.
Foram 21 anos bem vividos, se é que qualquer coisa possa justificar essa partida repentina. Foi intenso demais, forte demais. Como tudo sempre foi em você. Dói. Bem mais do que quando você disse que ia pro Rio e eu fiz cara feia. Dói de um jeito que só Laís Pimenta traduziria. Vai com Deus, amiga. Faz tua entrada triunfal aí no céu, dá uma sacudida no lugar e faz tudo ficar  “daquele jeito!”.


3 de janeiro, um mês sem Lais Pimenta.

domingo, 17 de julho de 2011

Socorro



-O que você está sentindo?
-Nada
-Nada?
-É, nada.
-O que fez você vir até aqui, então?
-Nada.
-Amigo, eu preciso saber qual o seu problema. Geralmente, as pessoas vem aqui por que estão sentindo alguma coisa. Por que você veio aqui se não está sentindo nada.
-Por isso, doutor. Eu não sinto nada. O senhor tem algum remédio pra isso?

segunda-feira, 11 de julho de 2011

"21"

Hoje eu tenho vinte e um e quando eu menos esperar, serão quarenta. É que por mais que a gente pare de contar o tempo, ele continua passando. Esse tempo ingrato que se diverte a nossas custas. E fazer aniversário é um grande motivo para fazê-lo satisfeito em nos ver confusos viajando nele. A situação faz a gente voltar para o primeiro momento em que começamos a querer marcá-lo. Isso seria o quê? 10, 12 anos atrás? Quando o que mais interessava na véspera de nossos aniversários era fazer a lista dos possíveis presentes. Ou quando estávamos prestes a curtir os primeiros minutos de maioridade.

Não sei se essa é a hora em que a idade deixa de importar, mas sei que nesses vinte um anos, a data marcada tem pesado pouco. Tem valido mais o momento. Os passos que tenho dado a caminho de me tornar uma pessoa melhor do que aquela eu era; o tanto de erros que tenho cometido nesse caminho. Eu conto minhas passagens por dias de brigadeiro e comédia romântica nos sábados; por churrascos e promessas do tipo “nunca mais faço isso novamente”; por finais de semana inteiros terminando o trabalho da pior matéria do semestre. Por isso, eu ainda diria 20 anos, ou teria dito 21 a três meses atrás se me perguntassem. Não faria diferença. O tempo tem passado para mim não em anos, mas em momentos. Fases sem pré-determinação específica de metragem.
Se quiser me dá os parabéns, fique a vontade. O dia certo para a maioria das pessoas seria esse mesmo. Prometo que aceitarei de bom grado.  Se não, tudo bem também. Ainda tenho muitas datas ao longo do ano que podem ou não fazer jus a comemoração. Ele [o tempo] brinca comigo o quanto quiser, mas não significa que eu também não possa brincar com ele.

11 de julho de 2011, meu “21º’’ aniversário.

domingo, 8 de maio de 2011

Um gole.


        Chegou cedo e puxou a cadeira junto com os dois amigos. Bastou um sinal e o “parceiro” trouxe a primeira da rodada. Afrouxou a gravata antes do primeiro gole, que desceu lavando todos os desaforos que engolira aquela semana. Ainda não era sexta-feira, mas a quinta já sugeria pelo menos duas garrafas e alguns desabafos. Era regra de Happy Hour não falar de trabalho, mas ficava meio difícil não soltar um ou outro comentário malicioso, já que sobre o que ele mais queria conversar, tinha vergonha. Não precisou nem falar, bastou pensar e ela atravessou a rua em direção à mesa com outras duas amigas. Observou cada detalhe, o blaser nas mãos, o coque no cabelo escovado e o rosto discretamente maquiado. De manhã ela estara impecável. E mesmo no fim do expediente, já relaxada, continuava linda. Eram de departamentos diferentes. Um dos poucos momentos em que se cruzavam era no começo do dia, ele já sentado na sua mesa, observava as 8h13 da manhã. Pontualmente. 
        Cada dia, uma fala diferente ensaiada. Nunca coragem o suficiente. Sabia da sua rigidez, ouvia sua fala firme e colhia comentários no café sobre sua competência. Queria descobrir mais. Tentava imaginar que músicas ouvia na hora do banho, e se dançava na frente do espelho quando ninguém estivesse olhando. Perguntava-se se choraria ou balançaria no salto quando ele a tomasse nos braços e dissesse tudo que sentia. Mas era tão distante dele, tão maior, tão perfeita. E agora ela estava ali. Eram todos iguais, tentando compensar na cerveja a dureza de uma semana puxada. Ela passou e não olhou. E nem podia. Como reconheceria alguém que se escondia por detrás do computador cada vez que ela se aproximava. Respirou fundo e tentou buscar coragem nos poucos goles de álcool no seu corpo. Levantou, parou, olhou. Seus amigos perguntaram “Algum problema?”. Ele respondeu “Não, só os mesmo de sempre. Do trabalho.” Bebeu outro gole de medo e sentou ao lado da desilusão.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Dois slides.

      Olhei o celular pela décima segunda vez. Dois minutos passaram e nenhuma nova mensagem. É que a luz do projetor me faz lembrar a meia-luz que fica no nosso quarto com a luminária ligada. Aquela fresta que me deixa ver somente tua silhueta desenhada na penumbra. E toda essa discussão sobre arte me dá vontade de ir pra casa te encontrar e virar a noite ouvindo teus discursos. De ouvir tua boca citando Chico, brigando comigo por nunca discordar de nada e nunca entender a minha hipnose causada pela tua voz. É que até teu silencio é contemplativo. Eles aqui falando de cinema e eu querendo você e a TV ligada pra ninguém. Nem o Jô, nem o episódio mais hilário de Friends. Pra quê gastar nossas madrugadas com qualquer outra coisa que não você, se meu dia foi contando cada passo focado na travessia da porta do nosso apartamento? Mais dois slides, a tua mensagem no celular “Chega logo!” e eu já até me sinto aí.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Bola de mentiras montanha abaixo.

    É que mentir é tão mais fácil. A culpa da mentira é menor que aquela da verdade dita sem pudor. Menor do que o peso do sofrimento alheio pelas palavras proferidas por nossas bocas, mesmo que verdadeiras. “Sou eu, não é você” sai mais naturalmente que “eu não te amo mais”. Poupam-se lágrimas, desgastes e discussões prolongadas e doloridas. A mentira é involuntária e conveniente, e passamos a dizê-las como um dependente químico que toma sempre “o último copo”. Só mais essa. E outra. E mais outra. Uma mentira engata na seguinte e a grande bola de neve nos engole. Somos nós nessa grande bola de mentiras rolando montanha abaixo. Cheia de “bom-dias”, “como você está bonita” e “Te ligo amanhã”.
     A mentira passa a ser um requisito social. Mentimos pela necessidade de uma convivência social saudável e relativamente estável. E de tão necessária acabamos acreditando inclusive nas mais desavergonhadas. De tão comum passa a ser verdade. Em um ponto a mentira deixa de ser verdade, ou é a verdade que tem um quê de mentira, ou a mentira que já não é mais mentira. E tudo se confunde. Amor, amizade, carinho, desprezo, indiferença, orgulho, inveja, felicidade, depressão. Vivemos uma verdade sozinha entre quatro paredes e outra, também verdade, ou meio mentira, no mundo fora do nosso. E o que é verdade? Ou mentira?

sábado, 2 de abril de 2011

Perdão

     Que me perdoem os desenhos esquecidos de canto, os versos pela metade. Que me perdoem os amigos pelo ouvir distraído. Os ex-namorados e até mesmo os futuros. As mensagens não respondidas e recados ignorados. Que me perdoem a irmã, a mãe, o pai e a vó. Perdoem as chamadas não retornadas e a toalha jogada na cama. O aniversário que passou e a visita que não fiz.  O conselho que não dei e o presente que esqueci.
     Tudo e todos que me perdoem, mas esse tempo era meu. Precisei me fechar e esquecer o tudo por um enquanto para que não virasse um para sempre. Para que eu fosse o centro, o egoísmo e a individualidade pura por um dia, uma semana ou um mês, se fosse o caso. Olhar para dentro e limpar os vidros pra que a vista da janela ficasse mais clara e fizesse mais sentido. Perceber que, às vezes, olhar pra trás é fundamental na hora de traçar um caminho adiante.
    Perdão.